Vizinhos

Estava lendo a Bíblia. Sentada no sofá. Recostada, meio de lado. Pernas cruzadas displicentemente. Na mesa de apoio, ao lado, a taça.

Lendo a Bíblia. Bebendo vinho. Inusitado, alguém diria se a visse. Mas era natural para ela.

O hábito de ler a Bíblia era antigo, desde a infância. Outros livros vieram, tantos outros se foram. Mas a Bíblia marcava ponto. Todos os dias. Taça numa mão, Bíblia na outra. Lia, e bebia. 

Pão e vinho. Meu alimento a palavra de Deus, disse Jesus. O mesmo Jesus transformou água em vinho. A Palavra é pão e o vinho é sagrado. Tinto. Sangue e vida. Sim, fazia todo o sentido. 


Sejam perfeitos como eu sou perfeito, era o que lia naquele momento. Ela tentou. Tentava. Ser perfeita. Talvez não perfeita, mas menos imperfeita. Melhor. E falhava. Falhava quando amaldiçoava silenciosamente a vizinha de porta, que não conseguia manter seus assuntos dentro de casa. A criatura precisava falar o mais alto possível, para todos saberem que o marido não quer dormir na cama, que o pai não foi ao casamento, que a filha não foi planejada... Falhava quando o preconceito adormecido dava sinais de vida ao ver um pedinte entrando no mesmo ônibus em que estava... Falhava quando fingia não ver o telefone chamando, porque achava que sua paz era mais importante que a necessidade de alguém falar com ela.

Mas tentava. Tentava e melhorava. Perfeição talvez não fosse alcançável. Mas era uma boa filha de Deus. 

Tomou um gole de vinho e reparou o gato na janela. Lembrou de sua maior falha.


Lembrou de quando assim como o gato, mirava o outro lado da rua. Mas ao contrário do gato, se escondia. Diariamente, como com a Bíblia, como com o vinho, chegava à janela. Fingia fechar as cortinas apenas para dissimular seu ávido interesse. Confirmando a chegada de seu exausto vizinho, preparava-se então para retirar-se ao quarto.  

Já sabia a rotina dele. Jantava na rua, pois quase não conzinhava. Colocava a farda na área, para lavar pela manhã, quando pegava a enxuta no varal para vestir. Passava para o banho, saía de lá ainda úmido e caía na cama, janela entreaberta como sempre, terceiro andar tem essa tranquilidade.

Em sua mente, tomava banho com ele. Já o tinha quase que cronometrado. Então ao sair, já posta camisola, o via pela janela do quarto, enrolado em sua toalha. Deitavam. Cada um em sua cama.

Mal sabia ela, que seu exausto vizinho costumava ler bem cedo. Com uma xícara de café na mão e Nelson Rodrigues na outra, sentava na escada do terraço. E um dia notou que tinha amplo acesso visual ao quarto de sua vizinha. Que a essa altura já estava meio descoberta em lençóis revolvidos. 

Não deixaria de ler. Era seu momento, e seu local favorito para isso. Não lhe diria, nada. Seria além de constrangedor, desnecessário. Não desviaria o olhar, era quase inevitável. Alguém mais perfeito, o faria. Não era o seu caso. Ele lia Nelson Rodrigues, ora! Se esforçava para ser melhor a cada dia. E conseguia. Mas não admirar sua vizinha, em descuidada beleza enquanto dormia, fugia a sua humanidade. As vezes se envergonhava disso. Mas nas primeiras horas da manhã seguinte, estava lá novamente.

Um dia teria coragem e ocasião de falar com ela. E um dia, quando não fossem mais vizinhos solitários, lhe contaria as incontáveis manhãs que a espionou. E ouviria dela as muitas noites que foi observado.







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