Mário Cravo e eu(?)
Saímos de passeio um dia. Minha família e a de uma amiga. Brincamos aqui e acolá, num belo e ensolarado parque. Até que num derradeiro momento uma mulher nos diz: "Aqui tem um museu, querem visitar?" E ali eu tive meu primeiro contato com artes plásticas. Se não foi o primeiro, foi um dos mais marcantes.
Teria eu seis, sete ou oito anos de idade, talvez menos, mas certamente não mais que isso. E ao entrar naquela galeria, se abriu diante de mim, um estranho, curioso e fascinante mundo. Um mundo que era físico e fantástico ao mesmo tempo. Ao meu redor estavam pedaços de madeira dispostas para serem admiradas como algo mais que isso. Meu pai trabalhava com madeira em diversas ocasiões. Na maioria das vezes eram usadas para construir andaimes e afins. Mas ele ia além, não era raro vê-lo confeccionar cadeiras, bancos, mesas, armários... para uso temporário ou permanente. Ele fez as janelas de nossa casa. Devo dizer que a amada janela de correr do quarto de dormir, foi ele quem fez. Dito isso, devo dizer também que meu pai não era carpinteiro ou marceneiro, mas a bem dizer sabia usar as mãos, as ferramentas e a matéria prima.
Claro está que já havia visto o pedaço morto de madeira tornar-se utensílio agradável. Mas o que meus olhos viram naquele salão cheio de silenciosa vida era inédito para mim. Pedaços brutos de madeira, pau, tábua ou ripa se uniam para constituir imagens familiares e esquisitas, simultaneamente.Pareciam enormes, talvez nem o fossem, mas me lembro delas enormes ...esculturas de homens e talvez mulheres também, não fazia diferença, eram formas humanas retratadas de forma tão realista que o pai de minha amiga lhe cobriu os olhos e disse chocado:"Não olhe não, é ousadia!"
Trago só lembranças boas daquele dia em que vi conscientemente pela primeira vez a arte moderna e realista de Mário Cravo Junior. Tanto que não esqueci esse nome. Há alguns meses estava num museu, numa exposição de fotos (belíssimas, por sinal), e entre as fotografias, havia uma linda em preto e branco. Era um close, um belo close de belas nádegas. Perto de mim estava um pai com sua filhinha no colo. Julgo que tinha cinco anos, talvez menos, mas não mais que isso. A menininha apontou a fotografia de modo inquisidor, ao que o pai respondeu: "É uma bunda minha filha, você tem, eu tenho, todo mundo tem." E passaram para a próxima foto, que era uma borboleta... Foi lindo, foi simples, foi educativo. Não foi imoral, não foi violento, não foi corruptível.
Meu pai não me pegou no colo e apontou para o falo dos homens de Mário Cravo e disse "É um pênis minha filha, eu tenho, seu irmão tem". Mas ele também não tapou meus olhos, negando boba e inocentemente a sua existência. As famílias não são iguais, as noções do que é normal e agradável não são iguais. Aquele dia a mais de 25 anos atrás, me ensinou o que muitos deveriam aprender hoje: respeito. O pai de minha amiga tapou os olhos dela, e poderia até ter saído da galeria e nos aguardar lá fora. O que ele não podia, e não fez, era tapar os meus olhos, que naquele momento eram responsabilidade de meus pais, e que eles julgaram não estar vendo nada absurdo. O que o pai de minha amiga não podia fazer, e não fez também, era entrar com uma ação contra a exposição, fazer campanha contra a arte e o artista, mobilizar pessoas que sequer conhecem um museu a protestar contra o que apenas ele viu. Naquela exposição fotográfica a pouco tempo atrás, notei como a dita inocência ou falta dela não está na imagem, mas na ação e reação de quem a ver.
Mário Cravo Junior morreu em 1 de agosto de 2018. Mas artistas morrem mesmo?

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