Gramas, Doramas e Realidade
Recentemente, mas nem tanto, recebi uma mensagem que me fez parar para pensar sobre como percebemos o mundo e, principalmente, como percebemos a nós mesmos. O texto trazia uma proposta poética: incentivar as pessoas a secarem sementes de frutas, guardá-las em envelopes e jogá-las em terrenos baldios ou à beira de estradas durante suas viagens. O objetivo? Reflorestar o caminho, garantindo que, de cada gesto simples, pudesse nascer uma árvore. A mensagem dizia ser um projeto do governo tailandês — algo que não confirmei, mas que carrega uma beleza inegável.
Ao compartilhar essa ideia no meu status, uma amiga logo se encantou. Consumidora assídua de doramas, ela pontuou como os orientais parecem ter um interesse genuíno pela natureza e como isso é retratado de forma sublime em suas produções. Mas o elogio veio acompanhado de um amargor: "Tenho vergonha de ser brasileira", disse ela. Para minha amiga, o Brasil é um "país miserável" que nada faz de proveitoso, e ela jamais diria amar uma nação que, em sua visão, não se valoriza.
Essa fala me gerou um incômodo reflexivo. É curioso como nos convencemos rapidamente de que a grama do vizinho é sempre mais verde. Se descobríssemos que podemos deixar a nossa própria grama tão vibrante quanto — ou que ela já é verde e apenas não a enxergamos —, do que iríamos reclamar?
A verdade é que a Ásia faz um marketing impecável. Através do que descobri que se chama 'soft power' de suas séries e filmes, eles vendem uma imagem de produtividade, eficiência, limpeza e saúde. É uma construção belíssima, mas que muitas vezes esconde o "lado B". O continente asiático é, hoje, o que mais polui o planeta, enfrentando crises severas de lixo, superpopulação e polêmicas sobre o envio ilegal de contêineres de resíduos para outros países. Existe um abismo entre a estética perfeita dos dramas televisivos e os desafios ambientais reais que eles enfrentam.
Por outro lado, olhemos para o Brasil. Temos problemas? Muitos. Sociais, políticos e históricos. Mas há um contraponto que não pode ser ignorado: apesar de todas as adversidades e do autodesprezo que muitos brasileiros nutrem, nós detemos a maior floresta tropical do mundo. Isso não diz algo por si só? Carregar a responsabilidade de ser o guardião de um tesouro que beneficia o equilíbrio de todo o planeta, mesmo diante de tanta exploração, revela uma resiliência e uma potência que raramente creditamos a nós mesmos.
O Brasil não é apenas o resumo das suas mazelas; é também a capacidade de resistência das suas comunidades e a riqueza da sua biodiversidade.
Para quem, como minha amiga, só consegue enxergar o brilho do que vem de fora, meu conselho seria um exercício de "desintoxicação" estética. Talvez seja o momento de dar um tempo nos doramas e sintonizar no Canal Futura ou na TV Cultura. Mais do que isso: sair da tela e visitar um Quilombo, conhecer de perto as histórias de quem protege a terra com as mãos.
Antes de querermos a grama da Ásia, precisamos reconhecer o valor do solo que pisamos. O Brasil é um paradoxo de desafios imensos, mas é, acima de tudo, um lugar de gente e natureza incríveis. Para abrir os olhos, às vezes basta mudar o canal e colocar o pé na nossa própria realidade.

Comentários
Postar um comentário