Quem canta o seu canto?

 Um dia eu estava em casa. Início de fim de tarde. Começo de adolescência. Já gostava "há tempos" de Legião. 

Ouvia dia e noite o que tinha para ouvir. 

Tinha um repertório vasto. E era fácil tê-lo. Amigos do meu irmão, que é mais velho, e por extensão amigos meus também, amavam Legião Urbana. Colecionavam cds e fitas. 

Eu tinha uns 12, meu irmão 15. Os amigos dele(e alguns meus)? Contava até com uns que tinham 25 anos de idade. 

Eu me sentia rebelde. Não fazia muito tempo eu era enlouquecida por exemplo, por Sandy e Júnior. Mantive o gosto. Mas vinha ao longo daqueles anos, a partir dos 10 e meio entrando cada vez mais na melancólia consciente de Renato Russo. 

Eu me sentia rebelde e ansiava uma depressão pra combinar com isso. Ela nunca veio. Que bom. Não é glamouroso como parecia, ser uma jovem depressiva. Episódios de tristeza naturais, claro houveram. Mas nada além, apesar dos acontecimentos que não vem ao caso aqui.

Eu estava em casa. Início de fim de tarde. Começo de adolescência. Eu me sentia rebelde. Passava o tempo livre com fone no ouvido, ao lado do aparelho de som, ouvindo minhas fitas. 

Um amigo da família estava lá. Amigo, irmão de religião, vizinho. Adulto, pai de família, religioso como nós...

Mas eu me sentia rebelde. Não contra minha religião. Eu estava ouvindo Legião, que em si é muito religiosa, e cristã, ouso dizer. 

Mas escutava e batia cabeça ao som de 1° de julho: sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher...

O irmão/amigo/vizinho a certa altura perguntou: que é que você tanto ouve aí?

Orgulhosamente eu respondo, Legião Urbana, de boca cheia.

"Legião Urbana? Bom!"

E começou a cantar no ato. Aquela, eu ainda não conhecia.Começou a cantar o que se tornaria secretamente por anos uma música guia para mim: 

"Já não sei dizer se ainda sei sentir

O meu coração já não me pertence

Já não quer mais me obedecer

Parece agora estar tão cansado quanto eu

Até pensei que era mais por não saber

Que ainda sou capaz de acreditar

Me sinto tão só

E dizem que a solidão até que me cai bem

Às vezes faço planos

Às vezes quero ir

Pra algum país distante

Voltar a ser feliz

Já não sei dizer o que aconteceu

Se tudo que sonhei foi mesmo um

Sonho meu

Se meu desejo então já se realizou

O que fazer depois

Pra onde é que eu vou?

Eu vi você voltar pra mim" 

Preciso dizer que foi uma doce surpresa? Não deveria, ele era adulto, obviamente curtiu Legião na juventude. Mas no arfan de achar que era mais jovem, mais isso ou aquilo, eu fazia uma ideia diferente dele. Ele cresceu, envelheceu, teve filho e se dedica a nossa religião. Legião Urbana parecia não se encaixar. 

Mas se encaixava e encaixa. Faz sim sentido. Somos todos dotados dos mesmos sentidos. E mesmo quem não canta o meu canto, canta algum canto por aí. E não é idade, religião, ou qualquer outra métrica que define isso. 


Maurício, Legião Urbana

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