Quarta literária; A Poesia...
O poema abaixo, foi escrito como reação á leitura do livro A Poesia é o alimento para quem tem fome de conhecimento, do Poeta com P de Preto. Livro com o qual eu pouco me identifiquei.
A minha falta de identificação com as palavras de sua poesia não significa no entanto, que eu não o exalte como artista e escritor. O livro é lindo. Os poemas são ótimos. Apenas não vejo o mundo com os mesmos olhos que ele e é isso que eu digo no poema abaixo. Deitei em verso o que senti ao ler o livro e ao ouvir comentários acerca do mesmo.
Poema com P de Pense
Quando é que você vai tomar posse de sua terra?
Quando você vai tomar posse de sua cidade?
Você age como se fosse forasteiro. Anda como se não tivesse direito.
Quando entra, olha logo para os lados. Parece que espera que alguém te siga.
Sente-se sempre acuada. Tem todo o estigma da raça perseguida.
Minha intenção é que fosse prosa, mas tá saindo poesia.
Mas rápido do que pensava, estou expressando essa agonia.
Agonia que sinto quando percebo que você perdeu um lance.
Você parece que nasceu ontem.
Estamos nos ombros de alguém.
Se podemos hoje, é porque lutaram antes.
Aquele sangue derramado não foi em vão.
E esse sangue não me prende ao poste.
A história do meu povo não é só de morte.
O que eu vejo é também valentia.
Coragem que eu não lembro só em alguns momentos.
Coragem que me dá fôlego dia a dia.
Quando piso no Pelourinho eu sinto um retumbar.
Houve um tempo que não o entendia.
Talvez seja a voz do meu povo dizendo:
"Se nessa terra cair lágrimas de novo, serão lágrimas de euforia."
Não me faça olhar mais para a miséria que para a ascensão.
Isso é incansavelmente mostrado na tela, na televisão.
Isso é minha realidade, isso é o que vejo da janela.
Me mostre que é possível.
Me dê os nomes, me dê a idéia.
Eu sou o que eu falo, eu sou o que eu penso.
O que ocupa a minha mente define meu sentimento.
Eu não vou dizer que eu não mereço.
Eu não vou dizer que não me dão.
Eu não vou esperar que ofereçam.
Eu não vou repetir passivamente: Gratidão.
Não vou ser uma cópia mais ou menos da Angry Black Woman.
Eu vou aprender o que eu puder, e eu vou exercer como eu quiser.
Essa terra é minha. Alguém lutou para aqui ficar livre.
Aquele outro continente não me chama, por mais que lá estejam minhas raízes.
Os galhos se espalharam violentamente. Contra vontade.
Mas está feito, não me podem*.
Eu vou ficar nesta cidade.
Pra quem conhece Salvador, Nova York nunca foi metrópole.
Isso é mérito de quem, senão dos soteropolitanos, os fortes?
Não me obrigue a ter vergonha de não falar gíria.
Não me obrigue a ter vergonha de ler clássicos literários.
Não vou ter vergonha de gostar de jazz.
Não me faça ter vergonha de querer tomar vinho caro.
Se você não tem emprego, não é por causa de sua cor.
Se você não tem estudo, não é por causa de sua cor.
Se te deram um baculejo, não foi por causa de sua cor.
Não há nada de errado com o seu preto retinto, ou com meu marron desbotado.
O problema está nos olhos de quem não vê.
O problema está na cabeça de quem não pensa.
De qualquer um que aprendeu errado e continuou errando.
E para esses tenho só algumas palavras
Sejam eles negros ou brancos:
Eu estou aqui, não há dúvidas.
Você não pode,
nunca pode me negar!
Se você tem um caso com isso,
pegue um livro e leia.
Abra a carteira pague uma análise.
Ou sei lá, se lasque!
Apenas supere.
Porque para mim isso nunca foi um problema de pele!
*podem, do verbo podar. Em outras palavras não me cortem, não me limitem.


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