Tarde com sabor de luto
Os gritos ecoaram pela rua e invadiram a casa interropendo meu almoço.
Estridente de início.
Desesperado em seguida.
Lamurioso finalmente.
Finalmente não por ter silenciado. Pois não silenciou então.
Persistiu. O clamor persistiu. A dor naqueles gritos era sentida á distância em que eu estava. Levantei.
Guardei o almoço e fui a varanda.
Nem precisaria. Eu sabia o que era.
Eu sabia quem era.
E deduzi o porquê era.
Ainda assim fui e olhei. Daqui de cima nada se via.
Minto.
Eu via a rua abaixo. A encruzilhada vazia. O filho da vizinha da esquina à porta, e em seguida sua mãe que saía. Via também a vizinha defronte. Detrás da grade. Olhávamos na mesma direção.
Porém elas podiam ver a cena, dada a posição em que suas casas se encontravam.
Eu não.
Eu só ouvia. A vizinha da esquina, ao sair bocejou. A vizinha defronte, tristemente meneou a cabeça, fez um muxoxo, se virou e entrou.
Eu apenas ouvia.
Apenas uma voz imperava naquele meio-dia.
Um grito.
A voz da mulher que num momento passou de esposa à viúva.
O grito desesperado em forma de pergunta: porque?
O fato irremediável, à la Suassuna nos cumprimenta diariamente.
A todo tempo algo abandona a vida para ser história, para ser poeira, para ser comida, para ser buquê...
Quase tudo o que faz a manutenção de nossa vida, está sem vida.
No prato, no corpo, no carro, em tudo.
Muitas e muitas vezes sorrimos diante de coisas mortas. Mortas por imposição da necessidade. E por ser necessário não percebermos.
O gado morto na panela, os restos de uma vida antiga no petróleo, o possível sangue derramado de nossas compras da China.
Nada disso choca por não ser íntimo, nem imediato.
Mas quando o corpo que foi complemento por décadas, o abraço que foi abrigo por anos, o olhar que foi cúmplice diariamente, se esfriam... O terror é real.
Eu também meneei a cabeça. Quanta agonia atravessava a mulher naquele momento.
No seu pranto desatinado ela gritou como era de se esperar: eu quero morrer! eu não quero nada, eu quero morrer.
O sentido de existir parece ser nenhum quando o que você tinha desaperece. Todos temos algum alicerce. Quando o perdemos, até firmar outro leva um tempo. Até lá, balançamos tristemente soltos diante dos ventos da existência.
Foram longos minutos de desamparo. Imagino que não importa quem a segurasse naquela hora, era desamparo.
O desamparo era interno, profundo, no coração. O companheiro de vida não estava mais vivo.
Há uma semana ouvi ele convidar o compadre para passar um dia na praia. Quando indagaram se ela iria também, a resposta tinha um tom de obviedade: oh, se ele vai eu vou.
E foi sempre assim. Ele trabalhou dia a dia fora de casa, ela trabalhou dia a dia na casa. Criaram filhos, fizeram samba, curtiram juntos. Bonito de ver. Na madureza da vida, com filhos criados e até com netos, estavam tranquilos. Caminhada de manhãzinha juntos. Um sambinha no fim de semana juntos. Uma semaninha na ilha juntos. E creio que só se sabiam juntos.
Mas, novamente, à la Suassuna: tudo que é vivo morre.
O remédio é chorar, lamentar, gritar o quanto queira.
E isso ela fazia.
Uma hora vai assentar a dor e viver de lembranças. Continuar a própria história. Honrar o que foi vivido.
Contar histórias do marido.
Contar os dias para que chegue o dia em que ela mesma irá descansar.


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