Sobre desconstrução e recomeço

 


  A vida é um cubo mágico. Não acho que isso tenha me ocorrido na primeira vez que deparei com um desses charmosos objetos, afinal, então era ainda criança. Tampouco foi naquele episódio de "Todo mundo odeia o Chris", em que no final é o "Golpe Baixo" quem rapidamente soluciona o enigmático brinquedo. Se bem que essa poderia ter sido a ocasião dum estalo existencial: será que a solução das questões que nos enlouquecem estão exatamente nas mãos dos loucos? Mas isso é outra história...
  A vida é um cubo mágico. Isso me ocorreu ao ver a história de um outro Chris. Por uma espécie de jogo, minha amiga sugeriu que eu assistisse ao filme À procura da felicidade. Sim, só o assisti por conta desse jogo: lançamos um tema, e cada uma cita um filme que se encaixa, se a outra não assistiu ao título indicado, tem um prazo para fazê-lo e dar sua opinião. Então, após ter evitado propositalmente durante quase uma década, sentei-me para ver a história de superação de Chris Gardner.

  A vida é um cubo mágico. Não sei se o próprio Chris sacou isso no momento em que tem um cubo quase pronto em mãos. Acho que não. Naquele momento, ele olha o cubo, e deixa-o de lado. Hesita. Como me parece que hesitou, até que não teve escolha, e: era ele por ele. Não havia outra pessoa para segurar as contas, não havia a certeza do teto e do prato. Não havia alternativa além de ser o melhor que ele podia ser. E aí, acho que é onde entra a desconstrução. Digam o que disserem, e não sei a opinião alheia sobre o assunto, mas não acho que o Chris teria dado tudo de si, se a situação não tivesse chegado ao ponto que chegou.
 A vida é um cubo mágico. Vamos aos poucos montando os lados. As vezes nos surpreendemos com uma parte pronta antes do planejado. Mas as vezes, quando achamos que estamos indo bem, que logo tudo estará encaixado: trava. Não dá para seguir pelo mesmo caminho. É preciso parar, pensar, voltar um pouco, desmanchar um ou mais lados para continuar o jogo(da vida). Só que há casos, em que não temos coragem para isso, ou vontade, não sei. Cada um tem o seu fator limitante. E então, é preciso que alguém venha e nos tire do eixo, nos faça mudar o rumo para ir mais longe. Essa motivação poderia vir sempre de modo amoroso. Mas as vezes vem dolorosamente na forma de abandono e desespero ao não ser capaz de dar, nem mesmo um abrigo digno ao filho. Não estou falando dos misteriosos métodos divinos de "ajudar" as pessoas. Me refiro a humanos, com atitudes comuns, altruístas ou egoístas. Atitudes que nos guiam carinhosamente, ou nos empurram brutalmente, mas cumprem seu objetivo: nos colocam em movimento. Aqui, me lembro de Resolve, do Foo Fighters: "um pouco de determinação/é o que eu preciso agora/me pressione/me mostre como".
  Não sei mais nada da história de Chris Gardner. Sei apenas do pequeno resumo ao fim do filme. Não fui pesquisar mais sobre ele, nem sobre sua esposa, nem seu filho... Peguei do filme o que entendo que ele tinha para me dar. E é isso: a vida é um cubo mágico. Se necessário desconstrua e recomece.

Por Tyra.

 Link para Resolve, Foo Fighters (Uou!!!): https://play.spotify.com/track/6Nt5aSBZC3Rs97mQeNzICw

Texto escrito originalmente para Pós Capuccino em 07/04/2017.

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