O Livro Dentro de Si


"É a sua essência que te molda como escritora." O suposto mentor disse estas palavras à sua pupila/amante num trecho do filme Albatroz. De imediato, como na maioria das vezes me pus a refletir sobre isso. Sobre como lidamos como escritores, amadores ou profissionais, com as palavras de nossa pena.

Às vezes, quando escrevemos com muita paixão, arrancamos tudo o que temos dentro de nós, de modo a ficarmos sem nada. Devorados. Cada palavra, cada frase, é uma fagulha de quem somos. E assim nos entregamos, sem reservas, à escrita. Quando se mergulha fundo nesse processo, a criação parece consumir a própria alma. De certo modo, um escritor nunca sai ileso do ato de criar.

Todo mundo tem um livro dentro de si. Mas nem todos conseguem trazê-lo à luz. Muitos têm medo de se expor, de compartilhar suas vulnerabilidades, e preferem deixar seus textos guardados, intactos, como segredos. E nem todos precisam publicá-los ou levá-los ao conhecimento de outras pessoas. Mas para alguns de nós, a necessidade de escrever vai além da simples vontade de contar uma história. Escrever se torna uma necessidade visceral, algo que se manifesta com urgência, como se o próprio ser só pudesse se completar ao colocar suas ideias no papel.

E, então, nos encontramos numa encruzilhada: escrever e se autodevorar, ou não escrever e deixar esse fogo interno definhar. Arrefecer a paixão que carregamos às vezes é uma escolha consciente, uma tentativa de proteger o que ainda resta de nós mesmos. Para continuar vivendo, muitas vezes escolhemos silenciar esse desejo insano de criar. Mas até quando conseguimos ignorar a pulsão de colocar no mundo aquilo que habita nosso interior?

Escrever é também um ato de coragem, pois estamos nos entregando, completamente nus, ao julgamento dos outros. Às vezes, essa entrega nos desgasta, nos esvazia, mas também nos transforma. E talvez nem todos os livros secretos, os textos não publicados, devessem ser espalhados ao público. O que seria de nós sem esses sacros e devassos mistérios, esses segredos não ditos que vivem dentro de nossa mente? O que nos restaria se fossemos apenas somas de palavras compartilhadas e histórias vazias, sem aquele toque de mistério que nos faz humanos?

O escritor se coloca num limiar entre o visível e o oculto, entre o que é exposto e o que permanece guardado. E talvez seja exatamente essa dualidade que nos define, que nos torna quem somos. O equilíbrio entre deixar algo de nós no mundo e preservar aquilo que não pode ser dito. Talvez o segredo seja, justamente, saber o que escrever, mas também saber quando deixar de escrever, para que o livro continue vivo dentro de nós.






Comentários

Postagens mais visitadas