Sonhos e Realidade: A Fantasia de García Márquez

 


"A vida não é o que vivemos, mas o que lembramos e como a lembramos."

Gabriel García Márquez disse isso ou é só fantasia? E em se tratando de García Márquez,  se for fantasia,  que mal há em fantasiar?

Há uns bons vinte anos atrás fui apresentada e absorvida pelo mundo literário realmente fantástico desse latino americano. "Realmente fantástico? Como pode isso?" Se pode! Realidade e fantasia fazem parte de qualquer infância saudável. Imaginamos que somos nossos pais ao vestir suas roupas e calçar seus sapatos. Imaginamos que temos profissões ao rabiscar nos papéis como se fossem documentos importantes. Imaginamos tempo e espaço diverso desenhado lugares e animais estranhos.

Realidade e fantasia acompanha a adolescência saudável também. Sonhos com fama, amores e liberdade, se fundem com planos mais palpáveis de formação académica, e trabalho remunerado. 

A vida adulta então,  para alguns, chega como ponto de virada e abandono da fantasia e abraço à crua realidade.

García Márquez diz não a isso!



Diz-se que que o homem escreveu Cem Anos de Solidão aos 40 de idade. Entrado e bem entrado em sua vida adulta, não  foi capaz de conter sua prolifera imaginação de voar, cavar, correr, subir e descer. Produziu então, esse danado romance onde a realidade é constantemente distorcida por elementos sobrenaturais, refletindo a forma como a memória e o tempo interagem por vezes dentro de nós mesmos.

Lendo Cem Anos, somos a todo instante convidados a refletir sobre nossa própria realidade. 

"As coisas tem uma magia quando lembramos dela"

E é só magia o que me acontece ao lembrar da época em que li Cem Anos de Solidão.  Me vejo deitada na cama de ponta cabeça, devorando aquele grosso livro. Tornou-se uma das minhas memórias literárias mais doces. Se tenho que dizer um livro favorito, um escritor favorito, uma personagem curiosa, uma época favorita... tudo tem a ver com Cem Anos de Solidão. Tenho vívidas em minha mente imagens que retratam os acontecimentos no livro, e também as lindas ilustrações de Carybé, o grande mestre argentino/baiano, que recheiam o livro com sua arte única e emocionante. Confesso que sempre fui apaixonada pelas pinturas de Carybé, e ver sua arte em 'Cem Anos de Solidão' foi um verdadeiro presente. Gabriel García Márquez foi um dos escritores que formaram o meu gosto e a minha cultura literária.



Posteriormente li também, O Amor nos Tempos do Cólera. Ali, a complexidade do amor e a passagem do tempo são exploradas da forma mais doce possível. Claro que este não me impressionou tanto como o primeiro, mas ainda assim foi bastante marcante. "...não existe remédio para a solidão, a menos que se ame." Concorde ou não, esta frase revela a sensibilidade de García Márquez em relação ao amor, as relações humanas, e a profundidade com que ele escrevia e conseguia tocar em temas universais, atravessando gerações e culturas.

Para além de sensível e sonhador, García Márquez  também foi um libertário. E como não ser, vivendo na América Latina e tendo o tamanho inteligência? "A literatura é a maneira mais eficaz de se dizer a verdade", disse ele. Defensor da justiça social e das igualdades,  ele  não perdia oportunidades de destacar a literatura como meio de resistência, e reafirmar o papel fundamental dos escritores como agentes de mudança em sociedades opressoras como as que são tão comuns em nossa SulAmérica.

García Márquez  deixou um legado com sua vida e obra, que nos prova que sonho e realidade se entrelaçam, desejo e luta justa se abraçam, que sangue e suor, bem misturados, podem ser doces. García Márquez mostrou ao mundo que fantasiar não é perda de tempo se você souber como fazer e souber onde a fantasia pode te levar.


Sim, "as coisas têm uma magia especial quando nos lembramos delas."

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