Descortino* **
- Então... continua desafiando o desconhecido..
- Talvez o desconhecido não me assuste.
- E talvez tenha medo de tomar conhecimento. - Novamente se sentia como mosca presa num alfinete.
Geralmente dizemos que temos medo do que não conhecemos. Muitas vezes é nisso que se baseia o preconceito. "Se eu não conheço, talvez seja perigoso, talvez deva evitá-lo".
Mas aí vem a moça e diz: talvez o desconhecido não me assuste.
Ela não tem medo daquilo que não conhece. Porque não conhecer algo, é permanecer inocente. E muitas vezes na inocência, mora a confiança. 'O desconhecido não me assusta, porque não sei o que de bom ou ruim ele guarda'.
Mas então, o cara vai e a confronta, 'talvez você tenha medo é de conhecer, afinal conhecendo é que você vai saber o que tem a enfrentar, a aceitar, a fugir ou o que seja' . Só tomando conhecimento do que a escuridão oculta é que saberemos se temos a determinação, a coragem suficiente para seguir em frente. Até lá, a ousadia ou o temor se baseia na inocência, no desconhecimento. "Sigo por esse caminho escuro porque não vejo perigo algum, e não vejo perigo algum, porque está escuro". Ou, "não sigo por esse caminho, porque está escuro e a escuridão pode esconder algum perigo, então não vou adiante". Em ambos os casos, a coragem de seguir, e o medo de seguir, se baseiam na ignorância. Então será que no fim das contas o que temos mesmo, é medo de conhecer. Porque assim poderemos dizer verdadeiramente depois: "eu não sabia"?
Bom no fim das contas, eles conversavam apenas sobre um colar. *Mas gosto de procurar o "desconhecido" nesses diálogos. E talvez eles estejam aí para isso.
- Então diga-me o significado deles. Ele aproximou-se e ela teve de controlar-se para não dar um passo para trás. O movimento fora leve, mas ele percebera e seus olhos riam divertidos. Rapidamente, tirou o colar e estendeu-o a ele, que o tomou numa mão, enquanto com o indicador da outra apontava o primeiro disco.
- Este aqui pede por amor. .. - Fixou-a como que esperando uma resposta.
- Suponho que todos pedem por amor algum dia.
- Mas não é tudo... Este promete retribuir o amor, o terceiro pede por uma paixão que tenha o calor do sol e a fúria dos elementos.
- O quarto promete retribuição, suponho. - Esforçava-se para parecer natural. - A moça que o mandou fazer devia ser uma criatura violenta. - Filipe sorriu.
- Mas sabia amar...
- O que diz o outro disco?
- Ainda não tem medo de saber o resto?
- Bem, não podem pedir nada mais perturbador do que já pediram.
Trecho em itálico retirado do livro (romance de banca sim) Sem tempo para amar, de Nerida Hilliard.
**Gostarei de escrever mais sobre a escolha da palavra no título em uma outra ocasião.


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