Meu som te cega, careta, quem é você?
Qual foi a última vez que você se arrepiou? Qual foi a última vez que você se arrepiou com uma música? A minha foi hoje, 11:58 da manhã, e então comecei a escrever. Interropi meu trabalho e vim digitar.
Eu costumava me arrepiar bastante com músicas em minha adolescência. E devo admitir, que aconteceu diversas vezes num ambiente religioso. Algumas letras de cânticos cristãos me tocavam profundamente. Mas não só. Posso dizer que fui agraciada, não sei bem como, com o privilégio de conhecer diversas músicas, estilos, cantores e compositores, nacionais e internacionais desde bem criança. Esse não será o momento em que citarei tudo o que me arrepia em matéria de música. Algumas de minhas preferências já foram citadas anteriormente. Belchior é um homem que me arrepia desde a infância, quando só o ouvia ocasionalmente no rádio. Virá o momento em que escreverei mais sobre meus tesouros musicais, se posso chamar assim.
Voltando ao arrepio das 11:58, o que precede isso é que, ontem à noite, antes de tomar banho me deu vontade de ouvir uma música específica. Essas coisas me acontecem. Uma música aparece subitamente na minha cabeça, se posso vou escutá-la, se não, fico cantarolando o tempo todo, até passar essa coisa. Também costumo acordar com uma música na cabeça. Assim, simplesmente acordo com aquela música. Não é que tenha adormecido escutando algo, raramente faço isso. Apenas acordo cantando mentalmente uma música específica, e eu amo isso.
Pois bem me veio ontem a noite a vontade de escutar a música Língua, de Caetano Veloso. Sim, amo Caetano Veloso. E essa danada dessa música é apenas uma das muitas admiráveis composições dele:
"Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira! Fala! "
E lá fui eu escutar: "Flor do Lácio Sambódromo..." Satisfeita a vontade. Deitei, li, dormi e acordei. Para iniciar meus trabalhos, decidi hoje escutar só Caetano. E vou ouvindo, trabalhando, ouvindo e cantando... até que começa a esplendorosa Reconvexo. Sim, sou apaixonada por essa música. Eu paro quando ela toca, quando vejo alguém interpretando fico encantada. E eu apenas não sei bem o que dizer. Não sou conhecedora acadêmica de música. Sei o que me agrada e o que não me agrada. Então, a melodia dessa música faz meus órgãos vibrarem, a entonação do Caetano me comove, a letra me provoca, e o conjunto me arrepia.
"Eu sou a chuva que lança a areia do Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança
A destemida Iara
Água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra
Você não me pega
Você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador
Que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol
Que não, que não e nem disse que não
Eu sou um preto norte-americano forte
Com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música
A mais velha
A mais nova espada e seu corte
Sou o cheiro dos livros desesperados
Sou Gitá Gogóia
Seu olho me olha mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô
Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor
Quem não amou a elegância sutil de Bobô
Quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo"
E você, qual foi a última vez que se arrepiou? Qual foi a última vez algo agradável te fez uma carícia na alma? Espero que você tenha essa sensação, seja com arte, música, literatura... ou com um ser humano maravilhoso que te faça tremer de emoção e satisfação.

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