A invisível assinatura de um texto

 



Certa vez dei um texto meu para uma amiga ler. Não disse, claro, que era meu. Cheguei e falei, olha só que interessante, lê aí e diz o que acha. Pois bem, após ler ela me disse: isso aqui é seu, foi você quem escreveu. 

Para início de conversa, não sou escritora profissional assuminda. E o que eu queria era uma opinião de fora, de alguém que não sabia absolutamente que eu andava a escrever. Me deparei com isso. Ela me explicou que não tinha a ver com o que estava escrito, e sim com a forma, com o estilo de escrita. Ela disse que podia me ouvir dizendo aquilo, praticamente leu ouvindo minha voz. 

E é isso, na imensa maioria das vezes eu escrevo como falo (ah esse falo, hein? ). Por isso sempre relutei em escrever coisas para os outros. Apresentações, pequenos discursos, conclusões de trabalho, comentários... desde a escola me pediam para dar uma mão,  literalmente né? Uma mão com um lápis e escrever um texto para ajudar. Gostar, eu gostava. Mas ao final acho que soava estranho para a própria pessoa que pediu. Eram as minhas palavras e o meu jeito de me expressar. 

Não é que seja uma forma única e absolutamente autêntica. O caso é que, por mais que o tema sobre o qual eu esteja escrevendo mude, o modo como vou discorrer sobre ele, em geral permanece. O modo conversante, porém não excessivamente coloquial está sempre presente, para citar um exemplo. 

Isso é o que chamo de assinatura literária. Isso existe? Há estudos ou ensaios sobre o tema? Não sei. Mas deve haver. Assim como sabemos de cara que determinada pintura é de Klint, ou de Van Gogh. Assim como ao ouvir aqueles três acordes sabemos que tá começando uma música da Legião. Assim como ao ver um trailler de filme sabemos se é de Tim Burton ou Tarantino.

E devo confessar, eu sou ciumenta com o que eu escrevo. Eu gosto de ler e reler o que escrevi, lapidar e corrigir. Deixar daquele jeito. Do jeito que me agrada ler. Do jeito que me soa familiar. O texto que concluo, ou mesmo o texto que apenas começo (desses tenho montes) são parte de mim. São amigos íntimos, pelos quais tenho muito carinho. 

Pode soar presunçoso, mas tenho medo de cópias. Quantas vezes passei silenciosa raiva ao ouvir alguém numa conversa dizer algo, algo que eu sei e a pessoa sabe que foi eu quem disse aquilo dias atrás. Algo como uma opinião diversa, ou um argumento, que a pessoa me disse no momento, que nunca havia pensado naquele ponto. Pois então posteriormente, e isso já aconteceu demais, eu via a pessoa dizendo eloquentemente: ah, nesse assunto eu tenho um ponto de vista, e é tal tal tal... e eu pensava: sério?

Tenho esse medo com o que escrevo. Eu sei que praticamente nada do que escrevemos, dizemos ou pensamos é absolutamente novo. É uma ilusão pensar que estamos revolucionando ou fazendo algo que nunca foi feito. Mas ainda assim, eu sempre tomo cuidado quando vou escrever sobre algo, por exemplo, evito ler textos de opinião antes. Tomo o cuidado de não me permitir influenciar,  ou mesmo repetir frases dos outros. E quando acho necessário por a citação de alguém, faço questão de colocar o crédito. Se não for possível, por motivo de memória falha, apenas deixo claro que ouvi, li, vi em algum lugar. Faço isso mesmo em conversas informais, não consigo citar uma frase, um acontecimento, uma argumentação,  sem dizer a origem, se ela não é minha.

Isso é honestidade intelectual. Mesmo no meu pequeno meio, entre minha família e amigos, que talvez nunca questionariam a autenticidade de algo que eu fale ou escreva, eu me apego a esse valor. E por isso me incomoda tanto o oposto a disso. Dizer ou escrever frases, idéias, argumentos de outros como se fossem seus, é algo que me desagrada profundamente. 

No campo da escrita propriamente dita,  que foi o assunto que comecei abordando, não sei quão realista é esperar esse tipo de honestidade. Digo no sentido de copiar um estilo de escrita. O fato é que, alguns artistas por exemplo, começaram imitando outros. Alguns começaram fazendo cópias mesmo de quadros. Cantores podem começar imitando voz e técnicas de outro, e assim por diante. Mas chega o momento em que é preciso ter um estilo próprio, uma assinatura. Algo pelo qual será reconhecido. 

Penso que escrever é uma arte também. Mesmo textos de cunho opinativo, críticas musicais ou cinematográficas, texto jornalístico, eles são a expressão artística de seu autor. É possível ao ler, saber se o artigo foi escrito por Reinaldo Azevedo ou Pedro Bial, por exemplo. Creio que ler Nelson Mota, deve ser tão legal como ouvi-lo. Cada um tem sua assinatura, seu estilo desenvolvido ao longo do tempo.

Por enquanto, eu tenho a minha. Pelo menos nesses textos espontâneos, escritos sobre o que leio, vejo ou ouço, eu tenho meu método e meu gosto. E na falta de quem me diga BOM ou APRIMORE, eu sou crítica de mim mesma e entusiasta de mim mesma. 

Nas ilustres palavras cantadas pelos Novos Baianos em Mistério do Planeta: 

Vou mostrando como sou

E vou sendo como posso...




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