Mais que uma dose de livro
Um bom livro não acaba, se esconde dentro de nós.
Essa é uma frase que os amantes da literatura costumam repetir. E esconder aqui não tem o sentido de encobrir, e sim de entesourar. Encontrar lugar em nosso íntimo. E é isso que acontece com o livro Alma Cativa, de Margarete Carvalho. Enquanto vamos lendo esse livro, ele vai entranhando em nosso organismo assim como água, suor e lágrimas são absorvidos pelo barro na moldagem de Amò Dúdú.
Nesse período de Leitura Preta, Alma Cativa foi o livro que mais ansiava começar a ler, e não decepcionou. Seja lá de quem foi a idéia de separá-lo para ser o último dessa tríade de livros, teve uma escolha acertada.
Alma Cativa é o tipo de leitura que eu gosto. Um texto bem escrito, com palavras e expressões bem escolhidas. Um livro que tem a capacidade de produzir imagens mentais, sons e cheiros, de forma que o livro vai conosco para onde formos, mesmo que ele não esteja em mãos. Quando menos esperamos, estamos comparando acontecimentos cotidianos com as aventuras descritas no livro. Afinal, não é pura fantasia o que lemos ali.
O livro começa muito bem, quando no primeiro capítulo nos prepara, como um sertanejo prepara o solo para a plantação. Nos apresenta alguém que é todas(os), mais também é única(o). Deixando claro que o pertencimento não é a ausência de identidade própria.
Nos apresenta também a uma cidade, onde não se entra só. Onde passado e futuro, não importam. O que importa são os aliados, os que se entrelaçam conosco.
É claro que não vou passar a descrever aqui o que há no livro, mas citei o que considero que fertilizou o solo do meu coração para a continuação da leitura. Ter em mente que "nada" ali é concreto, que "tudo" é subjetivo, me deixou tranquila para ler e me encontrar ou não naquelas páginas.
Não me surpreende ao mínimo que uma mulher, daqui da "terrinha", seja a autora. Essa terra não se cansa de brotar inumeráveis talentos. De Castro Alves a Jorge Portugal. De João Ubaldo a Larissa Luz, nosso povo sabe usar as palvras. Colocar nelas a força e a sensibilidade necessária para tocar e motivar corações. Margarete Carvalho integra esse combo de artistas da palavra, escrita ou cantada.
Alma Cativa é um livro com poder de penetração, que eu posso indicar despretensiosamente, e pode ser lido também despretensiosamente. E ainda assim a mensagem imprimida nas passagens, serão captadas. E mesmo sem a pessoa perceber, esse livro não estará mais na estante, na cômoda ou nas mãos. Chega o momento que ele está em nós. Almagamado, como barro preto.


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