Vestir é mais que cobrir

O homem é o animal
mais vestido e calçado.
Primeiro, a pano e feltro
se isola do ar do abraço.  João Cabral de Melo Neto.

Depois... depois cobre tudo. Se cobre em casa, cobre rua, cobre mata...
Mas falando em pano e feltro, esse afastamento de nossa natureza nua traz consigo a expressão da individualidade, criatividade, contemporaneidade. Vestir-se além dum ato de necessidade é também um prazer. Despir-se também, desde que seja a contento. Ter o privilégio de escolher as roupas que usar não é um bem comum. Muitas usam o que tem acesso, o que é dado ou doado ou herdado. Algumas vestem o que vêem nos outros e acreditam lhe cair bem.

O fato é que nem todas sabem o que gostam. Nem todas acham que podem ter o que gostam. Muitas de nós não conhecemos a variedade de estilos que existem, portanto circulam entre gostos repetidos, sem estar realmente satisfeitas.
Descobrir o que lhe agrada em termos de roupa é parte do auto-conhecimento. Descobrir que é possível exercer esse gosto é libertário.
A matéria prima para a construção de um estilo próprio, em geral e surpreendentemente pode estar mais ao alcance do que pensamos. É verdade que nem todas tem habilidades manuais. Mas as vezes o que é preciso, é tão somente a reorganização de seu guarda-roupas.

A eliminação de peças que estão ocupando espaço na gaveta e não no coração. A avaliação de coisas que estão nas caixas e que nem vemos, por isso nem usamos. As vezes é melhor um bocadinho de peças bem escolhidas e amadas, do que um abarrotado de roupas, que nos fazem passar raiva, não só para escolher, mas para se manter vestida. Seja por estar desajustada, desgastada, desbotada ou simplesmente ser desinteressante.

Encontrar, idealizar e conceber um estilo próprio é uma atividade constante, instrutiva e pode ser muito divertida.

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